sábado, 18 de novembro de 2017

Quantas vezes você diz "eu te amo" para seu filho ou filha?



Kiyo está acostumado a ouvir isso de mim. Nunca deixei de dizer. Algumas vezes acho que ele responde “eu também” de forma automática, sem pensar muito, mas nunca disse a ele que o amo para que ouvisse uma resposta.
Desde pequena, eu assumia que meu pai me amava. Era como se eu soubesse sem ter ouvido isso diretamente dele. Ele é meu pai, e como tal deve me amar, certo? Nunca entendi essa coisa de amor condicional. Para mim, amor de pai e mãe – filho e filha sempre foi algo incondicional e para sempre. Então, apesar de não lembrar quando eu ouvi “eu te amo” do meu pai, suas atitudes sempre me mostraram isso. Seu cuidado me mostrou isso por todos esses anos.
Um dia, perguntei a ele: “Kiyo, como você sabe que eu o amo?” E ele, sem piscar, respondeu: “Porque você me diz isso todos os dias.”
Foi nesse momento que eu lembrei do meu pai, que não precisava me dizer isso todos os dias, e pensei… será que minhas atitudes seriam suficientes para mostrar ao Kiyo que eu o amo incondicionalmente? Que ele não precisa fazer nada para ter esse amor? Será que eu preciso dizer “eu te amo” todos os dias?
Não sei. Nunca consegui não dizer “eu te amo”. Sai automaticamente.
Não precisamos dizer “eu te amo” para que nossos filhos saibam do nosso amor. Existem pessoas que dizem “eu te amo” constantemente, mas suas atitudes digam o oposto. Fazem isso “da boca pra fora”. Mas eu continuo dizendo, e continuo agindo. Espero que ele encontre sua forma de demonstrar seu amor ao próximo. Espero que ele saiba agir para que seu sentimento seja visto com sinceridade.
No mais, eu me conforto na certeza que ouvi em sua resposta: “Lógico que eu sei que você me ama, mamãe! Você me diz isso todos os dias, várias vezes por dia!”

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Menino-Esquilo




Kiyo sempre gostou de catar pedrinhas, florzinhas, galhos e folhas em nossas caminhadas. Numa viagem que fizemos ao Oeste dos EUA (Colorado-Utah-Novo Mexico), tivemos que colocar um limite na quantidade de pedras que ele poderia trazer. Nosso carro já estava “arriado” de tanto peso.

É isso que dá ser filho de bióloga. Ele AMA catar coisas para olhar depois, ou simplesmente para colecionar. Ele tem uma coleção ampla de pedras, com exemplos de pedras igneas, metamórficas e sedimentárias. Ele tem coleção de ossos de bichos que encontrou por aí. Ele tem coleção de sementes, galhos e folhas secas também. 

Então… eis que estava eu colocando as roupas da viagem para lavar, quando senti que a calça jeans do Kiyo estava excessivamente pesada. Inspecionei os bolsos, achando que poderia ter uma pedra ou um brinquedo. E me surpreendi com a quantidade de “acorn” (bolota? – um tipo de noz comuns aqui).



Imediatamente lembrei dos esquilos que guardam comida para passarem o inverno. Lembrei do Scrat do filme A Era do Gelo. E quase morri de rir com meu “Menino-Esquilo” se preparando para o inverno floridiano!



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Ironman Gloves ou Colcha feita a mão: Gratidão e sinceridade não são mutualmente excludentes



Kiyo recebeu um pacote da tia, enviado pelo correio: uma caixa endereçada a ele! Ele se sentiu todo importante (mais do que já é). 
Enquanto abríamos a caixa, ele juntou suas mãozinhas, fechou os olhinhos e começou a pedir em voz alta (prece mode on). 
“Please be the Ironman gloves! Please be the Ironman gloves!” (“Tomara que sejam as luva do Ironman… Tomara que sejam as luvas do Ironman!”). 
Quando abrimos finalmente a caixa, ele viu que era uma colcha feita a mão com todo amor pela tia Bugu. Ficou desapontado logo que abriu o pacote, afinal queria mesmo eram as luvas do Ironman.
Depois ele curtiu bastante a colcha sim, mas - todo pacote que chega pelo correio - ele ainda espera que sejam suas luvas do Ironman!

Essa reação dele não foi repreendida, Ele não levou bronca por expressar algo que desejava. Crianças são assim mesmo… expressam suas vontades e seus gostos de forma espontânea até que aprendem que isso é “socialmente inaceitável”.

Kiyo, com seus 8 anos, sabe bem o que ser grato quando alguém o presenteia. Ele, no entanto, não esconde aquilo que ele realmente deseja. Ele agradece, mas não tem vergonha de dizer que realmente queria ou esperava algo diferente. Espero que ele não perca essa característica tão pura e rara quando ele se tornar adulto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Ainda sobre o Thanksgiving...



Esses dias estava lembrando de algumas "perolas" do Kiyo. E essa tem tudo a ver com o feriado que acontecera na semana que vem.
Kiyo AMA fantasias. Ele tem uma caixa cheia delas. Tenho certeza que ele puxou a mim nesse quesito.
Enquanto arrumavamos suas fantasias, encontrei duas que eram de indios. Ele havia vestido essas fantasias em ocasiao da comemoracao de Thanksgiving na escolinha (jah uns bons anos atras). Foi entao que tive uma ideia:

- Kiyo, que tal se a gente se vestir de indio para comemorar o Thanksgiving?
Perguntei jah imaginando como seria legal fazer essa homenagem ao povo nativo.
Kiyo, sem pensar duas vezes, adorou a ideia. E adicionou:

- Logico! E o papai pode ser o PERU!

GLUGLUGLU

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O Dia de Ação de Graças e uma conversa entre dois amigos…




Esses dias estávamos almoçando em casa: Kiyo, seu amiguinho (vizinho), Jeff e a vovó. Os meninos estavam conversando sobre assuntos aleatórios quando – ao falarem algo sobre o feriado de Ação de Graças – Kiyo afirma:

“Eu não gosto dos peregrinos”

“Ué?!? Porque não???” – Perguntou o vizinho.

“Porque eles foram salvos pelos índios no inverno, fizeram o ‘Thanksgiving’, mas depois de alguns anos eles mataram o filho do chefe dos índios que ajudou eles quando eles chegaram nas Américas e mandaram o neto desse chefe como escravo pra Cuba. Você já pensou que horror??? Os índios ajudaram eles!” – Respondeu Kiyo, indignado.

O vizinho arregalou os olhos, levantou-se e disse: “Bye! Vou perguntar uma coisa pro meu pai!”

Fiquei esperando uma pergunta dos pais desse menino, mas acredito que já devem nos conhecer um pouco e entender o que se passou…

Mas e como fica a coisa do Peru de Thanksgiving???

Eventos históricos – quando vistos através de livros escolares – tendem a ser vistos por um prisma “cor de rosa”. Normalmente a história é contada a partir do ponto de vista do conquistador, do desbravador, do colonizador. E assim sendo, temos contos incríveis de descobertas das Américas, expedições corajosas que atravessaram o continente todo e tradições passadas de geração à geração sem serem questionadas.

Aqui nos EUA, uma dessas tradições é o famoso Dia de Ação de Graças – que será celebrado no país inteiro semana que vem. Nesse dia inúmeras famílias comemoram a chegada de um grupo de peregrinos europeus aqui nos EUA – que fugiam da perseguição religiosa na Europa.

Diz a história que esses chegaram muito perto do inverno e não tiveram tempo de plantar comida ou de construir abrigos. No entanto, foram salvos pelos nativos da região que os deram comida e abrigo durante o inverno. No ano seguinte, após a primeira colheita, os peregrinos fizeram uma celebração que durou 3 dias. Os nativos que os ajudaram no ano anterior participaram das festividades. E foi “instituído” assim o primeiro Dia de Ação de Graças… E os índios nativos viveram harmoniosamente com os peregrinos, comemorando esse dia ano após ano desde então até os dias de hoje, certo??? Só que não!!!

Ou melhor, só que não exatamente assim. Os peregrinos foram sim ajudados pelos nativos no primeiro inverno. Eles fizeram a festa da colheita no ano seguinte… e podem inclusive ter compartilhado a refeição com os nativos. No entanto, a história não parou nisso. Relatos de grupos nativos confirmam o motivo da indignação do Kiyo. No entanto, esses relatos não são ensinados nas escolas.

Kiyo ficou indignado com a crueldade dos peregrinos que, apenas algumas gerações após serem salvos pelos nativos, cometeram genocídio contra eles. O que fazemos em casa é buscar – na medida do possível – informações que vão além do que consta em livros escolares. Não ensinamos apenas o que está impresso. Buscamos informação por outros pontos de vista (todos os possíveis). E invariavelmente temos uma versão mais abrangente da história. Pelo menos damos voz aos outros protagonistas que muitas vezes foram silenciados.

Então em nossa casa, durante a comemoração do Thanksgiving, lembramos dos nativos que compartilharam seu alimento e abrigo com pessoas estranhas. E é nesse espírito de graça que compartilharemos da nossa família na próxima quinta-feira.


 The Thanksgiving Story

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A importância de TODOS os sentimentos – ou o que filme Inside Out (Divertida-Mente) pode ensinar para crianças e adultos

Inside Out - Disney Pixar 2015
Ontem assistimos finalmente ao filme Inside Out com o Kiyo. Sim, eu sei que o filme já saiu de cartaz e que estamos mesmo atrasados. No entanto, estávamos ansiosos para assistí-lo devido às inúmeras boas recomendações. Eu gostei do filme. Kiyo AMOU! Realmente se divertiu com as palhaçadas do “Medo” e os ataques de fúria do “Raiva”. No entanto, o que eu realmente gostei no filme foi a mensagem que precisamos de TODOS os sentimentos para sermos nós, inteiros e completos seres humanos.  
No filme, a Riley – uma menina de 11 anos que passa por uma mudança bastante radical quando seus pais decidem sair de sua cidade natal no estado de Minnesota e irem de mala e cuia para São Francisco, na Califórnia. As emoções da menina, lideradas pela Alegria, tentam encontrar a melhor maneira de ajudá-la enfrentar essa mudança. Antes as emoções eram comandadas pela Alegria. No entanto, o estresse gerado pela mudança faz com que a Tristeza se sobressaia. A Alegria, que não queria que a Riley ficasse triste ou sentisse algo que fosse “negativo”, não compreende essa mudança de início e isso gera um caos emocional na menina. Após muita confusão, ela finalmente entende a importância de todas as emoções e que cada uma tem seu lugar e hora de comandar nossos sentimentos. Só então a menina Riley recupera sua tranquilidade.
O filme trata de questões como saudades, sentimentos de perda, sensações de desconforto por não pertencer a determinado grupo. No meu ver, essa é uma lição muito importante. Fiquei feliz que pude conversar com o Kiyo sobre isso hoje, enquanto íamos para o Taekwondo e ver que ele também compreendeu a mensagem – aos 8 anos. Fiquei feliz, pois esse nível de compreensão nem sempre é tão óbvio – muitas pessoas vivem a vida toda sem nunca entender essa importância.
Mas porque temos tanta dificuldade em aceitar sentimentos de tristeza, dor, medo? Porque temos a necessidade de estar sempre alegre e saltitante? Se nos permitirmos sentir uma gama abrangente de sentimentos (indo da alegria até medo, raiva e tristeza), aprendemos a lidar com essas emoções. Quando lidamos com essas emoções, passamos a nos entender melhor.
Quando passamos por alguma perda ou por uma mudança radical em nossas vidas, muitas vezes as pessoas mais próximas nos dizem para “sermos fortes” ou “não ficar triste” ou ainda “só pensar coisas positivas e alegres”. Na verdade, temos que passar pelo luto, pela saudades, pelo medo ou até raiva para que possamos resolver a questão dentro de nós mesmos.
Uma criança, talvez por não saber bem como expressar essas emoções, precisa se sentir amparada por seus pais/cuidadores/pessoas de confiança para que ela consiga lidar com suas emoções por completo, para que esses sentimentos não se transformem em casos graves de depressão.
No filme, quando a Alegria permitiu que a Riley sentisse e expressasse sua Tristeza por sentir saudades de sua vida /amigos em Minnesota, tudo se resolveu.
Quando falamos para nossas crianças que não precisam chorar, ou tentamos “driblar” a tristeza por qualquer motivo que seja, estamos causando um tipo de “curto-circuito” no sistema emocional delas (e no nosso também).
Então eu recomendo esse filme a quem quiser mostrar a seus filhos que não há nada de errado em chorar porque sente saudades de pessoas queridas. Ou que é importante e necessário que se permita passar por um período de luto quando se perde um ente querido ou um bichinho ou um balão de gas que lhe escapa dos dedos.
Fiquei feliz porque Kiyo entendeu a importância de expressar suas emoções. Ele faz isso desde sempre, porque a mamãe aqui não acredita em sentimentos bobos ou emoções erradas. E ontem, antes de dormir, ele pode colocar em prática mais uma vez essa lição.
Enquanto estávamos deitados, ele começou a fungar como se estivesse chorando. Perguntei se estava tudo bem, e ele – mais que depressa – pulou para minha cama e começou a chorar copiosamente. Abracei-o e perguntei mais uma vez o que foi que aconteceu. Ele me disse que estava triste pois seu balão (da banca de limonada que fizemos durante a tarde) havia se soltado da mesa e voado. Ele ficou visivelmente abalado, mas sabia que poderia chorar por conta de seu balão perdido pois sabia que eu estaria ali para consolá-lo.
Assim, ele dormiu tranquilamente depois que chorou tudo que tinha para chorar.

Porque não existe essa coisa de: “homem não chora”, “chorar é sinal de fraqueza” ou “temos que ser fortes”. 
E ele não precisa estar alegre e saltitante o tempo todo. Ele precisa sim ser honesto consigo mesmo e expressar exatamente aquilo que sente.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ter medo não é covardia

Eu já fui uma pessoa "medrosa", "cagona" e outros adjetivos menos apreciados. Eu já tive muito medo do escuro. Já tive tanto medo de aranha que chegava a congelar no lugar. Ficava apavorada (mesmo depois de "velha") só da possibilidade de ter que ficar sozinha em casa. Não gostava de filmes de terror, pois eu sabia que teria pesadelos. Morria de medo de cair de bicicleta, de pular na piscina ou de subir em lugares altos.
Quando eu era criança, eu aprendi que sentir medo era sinal de fraqueza. Chorar era coisa de gente boba, e eu não tinha motivos para ficar com medo de nada. 
Lembro das inúmeras vezes que chegava a fazer xixi na cama pois o medo de levantar e ir ao banheiro no meio da noite - no escuro - era paralizante. Lembro também das outras vezes em que ficava acordada na cama rezando para que o dia logo clareasse para que eu pudesse levantar, tão paralizada eu estava das sombras que se faziam na janela do quarto. Eu chorava de medo, mas escondia meu choro de vergonha de sentir medo... de vergonha de ser tão "covarde".
Talvez na tentativa de me ajudar a superar os medos, meus cuidadores tenham dito vez ou outra que meu medo era uma "besteira", coisa sem importância ou que não tinha nada para ter medo ali. Talvez eu tenha ouvido isso sendo dito a outras crianças e tenha incorporado isso pra mim. Certamente ouvi de colegas que eu era covarde por sentir medo de certas coisas. A verdade é que eu tinha certeza de que meus medos faziam de mim uma covarde e que - se covardia era algo ruim - então ter medo (ou afirmar tê-los) era algo ruim também. E assim sendo, eu escondia meus medos. Engolia seco e passava por situações que temia. 
Vejam bem, enfrentar medos é saudavel desde que essa seja uma escolha ativa de cada um, e isso deve ser feito com o apoio de pessoas de confiança. No entanto, quando somos forçados a "enfrentar nossos medos" sem que tenhamos apoio e sem reconhecer que esses medos são reais, o resultado pode ser desastroso.
Lembro bem de como me sentia quando meus medos eram diminuídos e minhas inseguranças eram tidas como besteiras ou motivos de deboche. Eu sentia que era covarde. Foi apenas depois de adulta que passei a assumir meus medos. Passei a tomar posse deles, e refutar qualquer tipo de chacota. E a sensação de LIBERTAÇÃO foi avassaladora. 
Então, quando o Kiyo nasceu, fiquei muito atenta para seus medos. Se ele demonstrasse insegurança em fazer algo, eu estava ali para dar-lhe segurança. Depois dos 3 anos, ele passou a sentir mais medos. Esses medos passaram a ser bem mais frequentes.
Desde então, conversamos bastante sobre esses medos. Pergunto a ele detalhes sobre seu medo. Explico a ele que estarei ali, e que não há problema algum em sentir medo - apenas precisamos encontrar meios para vencer o medo paralizante. 
Ultimamente seus medos têm aumentado significantemente. Praticamente todas as noites ele chora de medo. Fica apavorado com qualquer barulho do apartamento de cima. Não quer ir sozinho ao banheiro. Seus medos são variados: medo do escuro, medo de monstros, medo de ladrões, medo de barulhos estranhos, medo de perder mamãe e papai... medos que o fazem ficar apreensivo, medos que o fazem chorar de soluçar e agarrar minha mão com toda sua força de menino de 8 anos. 
E quando ele se acalma, depois que o choro passa, enquanto ainda estamos ali abraçados enfrentando juntos seu medo, eu conto para ele a minha historia. Explico para ele que sentir medo é normal. Conto de como eu me sentia quando tinha medo do escuro. Falo sobre não existir medo besta, sem motivo ou sem importância. Explico também que, apesar de ser normal sentir medo, não podemos deixar que os nossos medos nos paralisem. E que por isso ele tem a mamãe e o papai - para ajudá-lo a combater seus medos - a enfrentá-los de frente, com coragem e segurança de que ele pode vencê-los. 
Digo a ele que toda vez que ele sentir medo, ele pode contar comigo para segurar sua mão - indiferente da hora. Ele sabe disso. Ele não tem vergonha de sentir medo, pois ele não precisa enfrentar seus medos sozinho. Afinal: TODOS JUNTOS SOMOS FORTES!